Análise: CD "Um Novo Tempo" - Danielle Cristina


Danielle Cristina se tornou uma das maiores cantoras pentecostais do país ao possuir um ministério bastante consolidado devido a uma trilogia de música sua ficar encarregada de espalhar seu nome em grande parte das igrejas; sendo essas músicas "Projeto Santo", "Deus, Tu És Santo" e "Fidelidade", dentre as quais, as duas últimas citadas são consideradas canções atemporais, ou seja, ainda são ouvidas em boa parte das congregações nos dias atuais.

Até hoje, a discografia da cantora continha pouquíssimos erros, pois a mesma se preocupava em trazer sempre algo diferente a cada trabalho que chegava às lojas de todo o país, ficando meses após meses trabalhando em um único álbum, o que resultava em materiais incríveis, como o seu disco antecessor "É Só Adorar" ou mesmo o aclamado "Fidelidade". 

Mas, para minha surpresa, chegou às plataformas digitais nos últimos dias, seu novo trabalho pela gravadora Central Gospel Music e, toda a minha boa ideologia construída em cima da carreira da cantora, veio abaixo com um dos álbuns mais fracos - em todos os aspectos - lançados nos últimos anos na música pentecostal.

Trazendo o nome de "Um Novo Tempo", a falta de criatividade não se limitou somente ao título, se expandindo, também, inacreditavelmente para a produção do material, suas canções e, até mesmo, para o encarte do disco.

O maestro encarregado de produzir as dez faixas presentes no repertório foi Tadeu Chuff, um dos grandes arranjadores da música gospel atualmente, mas que optou em não mostrar todo seu potencial dessa vez.

O projeto gráfico da obra ficou nas mãos de Diógenes de Oliveira, responsável pela agência D9 Design, contendo fotos realizadas em estúdio, por Cristiana Mendonça. Infelizmente as fotos, que já são bem limitadas por não serem externas, somaram para um encarte muito fraco em relação a todos os seus anteriores, decepcionando da capa até ao passar das lâminas. E, ironicamente, não veio no formato digipack como todos os outros álbuns lançados pela gravadora, somando ainda mais para com o descaso do material. 

Outro fato que vale a pena citar é que o timbre da cantora, mesmo sendo muito bonito, é meio complicado de se trabalhar por ser bastante anasalado, e o uso indevido de melismas pode resultar na impossibilidade de ouvir o álbum até o final. Essa parte de produção de voz ficou nas mãos de Jairo Bonfim em oito músicas e, de Lilian Azevedo, em outras duas.

Assim como já citado mais acima, o álbum será distribuído pela gravadora Central Gospel, que é presidida por Silas Malafaia, e deve ter seu lançamento nacional no dia 13 de agosto no programa realizado pelo pastor. 

*É importante lembrar a todos que em nenhum momento nessa resenha será questionado o grau da unção da cantora ou sua intimidade com Deus. Tudo digitado aqui é baseado em informações técnicas sobre a qualidade do material em relação à discografia da cantora e aos outros lançamentos do mercado que rodeiam o trabalho em questão, se baseando em uma análise crítica, e não em um texto dissertativo, no qual deve-se manter a imparcialidade. 

Vamos falar agora sobre cada música presente no álbum. Preparados?!


01. Cidadão do Céu | (Composição: Dedy Coutinho / Jairo Bonfim) 

Abrimos o disco com uma canção que fala acerca das coisas daquele que for salvo desfrutará quando, enfim, subir no esperado arrebatamento da igreja, frisando que não fazemos parte dessa sociedade e que somos peregrinos durante nossa rápida estada aqui na terra. 
É constituída por pequenas estrofes e um refrão repetido constantemente, resultando em uma música rápida e de fácil aprendizado. 
"Lá na glória morarei, e pra sempre cantarei santo és, santo és, meu Deus", diz o refrão da música, o qual é entoado nos segundos iniciais da canção.
É uma faixa bastante simples, principalmente devido ao conteúdo lírico não sair muito da área de conforto que outras canções do tema investiram, e sua produção não teve pra onde fugir em se mostrar criativa.
O vocal se sobressaiu bastante durante toda a faixa, marcando presença o compositor Jairo Bonfim, que já escreveu uma canção de mesmo tema para a cantora, no álbum " Alegrai-vos ".


02. Promessas | (Composição:Luciana Leal) 

A primeira faixa de trabalho do material se encontra na segunda posição no repertório da obra, sendo o maior destaque do disco, não estranhando, agora, sua escolha para single.
Sua letra é baseada na fidelidade de Deus para cumprir suas promessas na vida de quem se mantém fiel, não envelhecendo seus projetos, mesmo com o passar dos anos, citando o nome de personagens da Bíblia Sagrada como José, Daniel, Elizeu e Davi. 
"Não passou da validade, nunca vai envelhecer, a promessa, o milagre, o que Deus tem pra você. Nosso Deus é poderoso, criador da terra e do céu, Deus conosco, Emanuel". 
A música já foi gravada anteriormente pela cantora Rebeca Carvalho, recebendo na sua versão original o nome de "Validade", o qual acredito que deveria ter sido mantido na canção em questão analisada.
O refrão da faixa é bem fácil de grudar na cabeça dos que a ouvem, sendo uma aposta para os conjuntos das igrejas de todo o país, apesar de não se comparar aos sucessos anteriores que já ouvimos na voz da cantora, mas é o que temos para hoje, né? 
A compositora da canção, Luciana Leal, tem surpreendido bastante no cenário pentecostal e já se destacou anteriormente ao escrever sucessos como "Poderosamente Vivo" de Michelle Nascimento ou Sandra Pires e "Intimidade" da própria Danielle Cristina.


03. Meu Alto Refúgio | (Composição: Dedy Coutinho / Quesia Coutinho) 

Se eu citei mais acima que o repertório da obra pecou muito quanto ao fato de não trazer novidades, essa música contribuiu bastante para isso ao apresentar uma temática muito repetitiva e ouvida várias vezes na esfera evangélica. 
Traz uma letra baseada sobre termos Deus como base para seguirmos nossos caminhos, pelo fato Dele ser fiel e inabalável. Ou seja, nada que não tenhamos ouvido antes em metade dos trabalho de qualquer outro cantor do gênero.
Apesar da falta de originalidade, já li alguns comentários elogiosos para a música.


04. Um Novo Tempo | (Abdiel / Alan Gomes)

A faixa título do material é uma das músicas que salvou o repertório da obra ao analisá-lo como um todo.
Trazendo uma produção razoavelmente boa, era necessário mais para uma canção com um conteúdo tão forte como esse. 
Ela fala sobre a igreja de Cristo viver um novo tempo no evangelho, necessitando apresentar verdade em nossas pregações e também nos louvores que entoamos. Se resumindo muito bem ao iniciar com o trecho “Chegou o tempo de cantar o que vivemos, e a nossa vida ser a nossa canção”. 
O tema tão atual soma bastante para os pontos positivos da canção. E o lado negativo vai para as várias vezes em que a faixa ganha força em sua produção e do nada o momento é quebrado dando lugar a momentos mais leves.
Se tiver que garimpar algumas músicas para os departamentos escolherem para cantar em suas congregações, essa fica no páreo com a faixa de trabalho do álbum. 
“Aleluia, aleluia, como Ele venceu sua igreja vencerá! ”, diz o refrão da música.


05. A Tua Graça (Feat. Jairo Bonfim) | (Composição: Gabriela Gomes) 

Chegando na metade do álbum temos uma das canções mais belas do material por conter uma letra sincera e bem construída. 
Seu conteúdo lírico fala sobre a graça de Deus sobre nossas vidas, que nos restaura e nos refaz. Sendo escrita por Gabriela Gomes que, acredito eu, seja a filha do cantor Marquinhos Gomes, que fez recentemente um ótimo álbum com músicas autorais.
A faixa traz a participação do cantor Jairo Bonfim, que já dividiu os vocais com a cantora anteriormente na música "Meu Bom Pastor", e trouxe tudo que a boa canção pedia. 
A produção foi bastante coerente com o tema intimista e leve que a canção trazia, sendo essa, portanto, a faixa mais coesa quando se trata da produção da obra. 
Se ficar com preguiça de ouvir todo o trabalho, tire um tempo para ouvir ao menos essa canção.


06. Em Ti Jesus (In Jesus Name) (Feat. Jozy Bonfim) | (Composição: Israel Houghton / Darlene Zschech) (Versão: Cristiana Lima / Matheus Mota)

Temos aqui uma versão para um dos sucessos da cantora Darlene Zschech, "In Jesus Name", escrito pela própria em parceria com um dos grandes nomes da música Internacional, Israel Houghton. 
Não é uma das melhores versões já interpretadas pela cantora, que tem em seu currículo "Deus, Tu És Santo", "Neste Lugar" e várias outras e, ironicamente, essa não é traduzida por Sandra Scaff, que se tornou conhecida ao versionar músicas para a cantora e, também, Elaine de Jesus.
É uma música bastante animada, e isso se concretiza ao ser inserido um rápido trecho em rap durante a canção, sendo realizado por Jozy Bonfim, conhecido por fazer o vocal para vários cantores do gênero. 
A produção acertou em alguns momentos no decorrer da faixa, e pecou em alguns ao pôr "batidas" que não soaram muito bem para a música.
“Eu fiquei imaginando como seria cantar e declarar essa canção no meio da minha geração. Ela tem uma letra muito forte. É exatamente o que quero ministrar neste novo tempo”, declarou a cantora sobre a confusa faixa, que mostrou que nem tudo em inglês caí bem para o português.


07. Dos Teus Pés Não Vou Sair | (Composição: Dedy Coutinho / André Freire) 

Essa vai pra lista das canções mais interessantes do álbum, apesar de não apresentar tantas novidades e ser bem simples, ainda traz um refrão bem estruturado e que muitos vão gostar de ouvir. 
Nela ouvimos sobre ficarmos debaixo da vontade de Deus e do seu querer para nossas vidas, mesmo que tenhamos de abrir mão das nossas próprias dores. 
"Glorioso, Deus tremendo. Eu já sinto sua presença envolvendo com tua glória hoje aqui. Não sei se eu estou subindo ou se o céu está descendo, eu só sei que dos teus pés não vou sair".
A produção ficou na linha quanto ao que a música pedia, e o vocal fez um belíssimo trabalho, tanto no refrão quanto na reta final da faixa. 
André Freire tem aparecido cada vez mais nos repertórios das cantoras pentecostais do país e, se continuar assim, não vai sair nem tão cedo.


08. José, O Sonhador | (Composição: Pastor Lucas / Pastor Samuel Silva) 

Uma das grandes revelações que tivemos na música gospel nos últimos anos, marca presença aqui neste disco com uma das suas composições. 
Dessa vez, o Pr. Lucas escreveu uma canção sobre os grandes sonhos que José teve mesmo quando muitos não acreditavam nele, e sobre a paciência para ver cada um deles se realizar, servindo de lição para cada um de nós nos dias de hoje, pois vale a pena esperar o tempo de Deus para que tudo venha se cumprir. 
Como em grande parte das músicas presentes no álbum, o prejudicial para a faixa foi a produção que poderia ter caprichado um pouco mais nos arranjos. 
Outro detalhe é que essa faixa não contém a participação do vocal, somente a cantora e os instrumentos e, em poucos momentos, a presença da mesma como apoio em segunda voz. 
"Disse, pois, o faraó a José: "Uma vez que Deus lhe revelou todas essas coisas, não há ninguém tão criterioso e sábio como você". Gênesis 41:3


09. Ele é Deus (Feat. Raquel Mello) | (Leila Francielli) 

Em sua nona e penúltima faixa do material, ouvimos sobre a grandeza de Deus e sua eterna soberania.
Trazendo a participação da amiga de Danielle, a cantora Raquel Mello, que não interpretou sua parte inicial cordialmente, mas fica um pouco "suportável" com o passar dos segundos, apesar da existência da sua necessidade extrema de mostrar seus dotes vocais e repetitivos melismas. 
Mais uma vez o problema presente na maioria das músicas do material se repete aqui, onde ouvimos canções com letras não necessariamente ruins, mas repetitivas e nada que não tenhamos ouvido anteriormente em outro disco, infelizmente.


10. Louve ao Senhor | (Dedy Coutinho) 

Se já não bastasse uma chuva de canções que parecem ter sido rejeitadas em álbuns de outros cantores que souberam escolher repertórios coerentes e criteriosamente preparados para este ano, temos aqui aquela famosa faixa animada sem nenhuma outra utilidade que não seja fechar um disco, mas que é até aceitável em um álbum com quatorze ou quinze canções, e não em um disco com dez faixas, as quais a sua maioria soa como: "Vamos pôr essa, porque tenho que fechar logo esse repertório". 
A única coisa boa e necessária que essa faixa me proporcionou foi que, enfim, o disco tinha chegado ao fim.

Em um ano com grandes lançamentos para a música pentecostal, Danielle Cristina nos trouxe um álbum que irá passar despercebido por todos os admiradores do gênero, simplesmente por ter sido completamente mal feito e um total descaso com os que acompanharam seu ministério e carreira adquirindo suas obras, mesmo com a fajuta desculpa de que "tudo é feito para a glória de Deus" ou que "o importante é a salvação de almas", quando, na verdade, nem os evangélicos compram mais discos feitos às pressas, imagina os que não são?

Algumas músicas no material são realmente relevantes, apesar da sua produção não condizer com sua qualidade. "Promessas", "Um Novo Tempo", "Dos Teus Pés Não Vou sair" e "José, O Sonhador" poderiam ser grandes canções, mas deixaram a desejar por esse detalhe tão importante. 

Uma produção que pecou em vários momentos, músicas que nem de longe lembram uma cantora que já foi referência em ter suas músicas nos conjuntos das igrejas de todo o Brasil, e um encarte que envergonha os grandes designers que já fizeram suas boas obras para a indústria evangélica. Assim podemos resumir o disco "Um Novo Tempo" de Danielle, que se inaugurar literalmente um novo tempo e trazer algo semelhante a partir de agora em seus discos, eu que não vou ficar para lhe acompanhar.


Por Herick Marques Diener

Proxima
« Anterior
Anterior
Proxima »
Comentários
0 Comentários
Obrigado pelo seu comentário
var pres = document.getElementsByTagName("pre"); for (var i = 0; i < pres.length; i++) { pres[i].addEventListener("dblclick", function () { var selection = getSelection(); var range = document.createRange(); range.selectNodeContents(this); selection.removeAllRanges(); selection.addRange(range); }, false); }